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O Paraguai vive hoje uma das fases mais promissoras de sua história econômica recente. Sua estrutura etária revela uma ampla maioria da população em idade produtiva e uma participação ainda reduzida de idosos — combinação conhecida como bônus demográfico. Trata-se de uma janela de oportunidade que exige decisões corretas no presente para produzir resultados sustentáveis no futuro. Foi nessa fase que as principais economias do planeta prosperaram. Contudo, tal condição não é permanente: ela tem data de vencimento.

As estimativas demográficas para 2026 são extremamente favoráveis ao Paraguai: em 2025 aproximadamente 28% da população está entre 0 e 14 anos, cerca de 65% encontra-se na faixa economicamente ativa (15 a 64 anos) e apenas 7% possui 65 anos ou mais, segundo projeções das Nações Unidas. Em termos econômicos, essa composição significa maior oferta de trabalho, maior capacidade de geração de renda e um elevado potencial de poupança privada.

O ponto central, porém, é frequentemente negligenciado: demografia não gera crescimento por decreto. O bônus demográfico só se converte em prosperidade quando o ambiente econômico permite que indivíduos e empresas transformem renda em poupança, investimento e produtividade.

Os incentivos corretos importam muito mais do que a demografia, conforme aponta a experiência internacional. A mensagem do Fundo Monetário Internacional, nesse sentido, é clara: “os países que conseguiram capturar os ganhos do bônus demográfico foram aqueles que preservaram incentivos ao trabalho, à poupança e ao investimento privado”. Onde esses incentivos foram distorcidos — seja por excesso de consumo público, seja por desestímulos regulatórios à poupança — o crescimento mostrou-se efêmero.

O mecanismo econômico é simples e bem conhecido: indivíduos em idade ativa geram excedente de renda; quando o ambiente institucional favorece a poupança, esse excedente é canalizado para investimento produtivo; e o investimento sustenta ganhos de produtividade, salários e crescimento de longo prazo. Sem poupança privada, o bônus se esgota rapidamente.

Experiências internacionais: Japão e Brasil

A experiência de dois países ajuda a ilustrar esse ponto: o Japão, como exemplo bem-sucedido, e o Brasil, como experiência frustrada, quando comparados às economias que foram capazes de usufruir de grande prosperidade ao longo das décadas em que o bônus demográfico esteve vigente.

Em 2025, a situação do Paraguai em relação ao Japão e ao Brasil é incomparável. O Japão possui cerca de 30% da população com mais de 65 anos , enquanto o Brasil (11% da população com mais de 65 anos) já apresenta uma população idosa que corresponde a quase o dobro da participação observada atualmente no Paraguai.

O bônus demográfico japonês teve início após a Segunda Guerra Mundial, no começo da década de 1950, e durou aproximadamente quatro décadas, encerrando-se nos anos 1990. Com uma força de trabalho abundante, jovem e acompanhada de elevados investimentos em produtividade, a economia japonesa acumulou capital e experimentou forte crescimento industrial. Nesse período, o Japão prosperou e se consolidou como uma potência global.

O Brasil, por sua vez, iniciou seu bônus demográfico na década de 1970, período em que experimentou crescimento acelerado, porém breve. O auge dessa janela ocorreu entre 2020 e 2022. Alguns especialistas estimam que o bônus demográfico brasileiro se estenderia até 2037; outros defendem que ele se encerra já em 2030, em razão da aceleração do envelhecimento populacional.

Independentemente da data exata, o fato é que o Brasil não aproveitou plenamente os benefícios do bônus demográfico, sobretudo em razão de baixos investimentos em educação de qualidade e limitações estruturais no mercado de trabalho.

O país manteve taxas reduzidas de poupança, forte expansão do gasto público e crescente dependência do Estado como financiador do desenvolvimento. Como resultado, consolidou-se uma economia vulnerável, com baixo crescimento potencial e forte pressão fiscal à medida que a população envelheceu.

A experiência brasileira pode servir de referência para que o Paraguai construa seu próprio caminho, aprendendo tanto com as virtudes do modelo japonês quanto com os equívocos do caso brasileiro.

Relatórios do FMI e do Banco Mundial indicam que o custo dessa estratégia inadequada não se manifesta no curto prazo, mas se materializa de forma persistente à medida que o envelhecimento populacional avança e o espaço fiscal se reduz.

A lição é direta: bônus demográfico sem mercado de capitais profundo e poupança privada robusta não gera prosperidade sustentável.

Sob essa ótica, a indústria de seguros e pensões assume papel estratégico central para o desenvolvimento. Ambos os instrumentos permitem que indivíduos transformem renda presente em poupança voluntária e contratual de longo prazo, reduzindo a dependência de soluções fiscais futuras.

Do ponto de vista atuarial, seguros de vida e planos de pensão organizam o ciclo financeiro das famílias, precificam riscos de forma eficiente e criam passivos previsíveis e financiáveis. No plano macroeconômico, esses passivos sustentam a formação de ativos de longo prazo, fundamentais para o financiamento de investimentos privados, infraestrutura e expansão do mercado de capitais.

Estudos do Banco Mundial mostram que economias com maior penetração de seguros e previdência complementar apresentam maior taxa de poupança, menor volatilidade macroeconômica e menor pressão futura sobre o orçamento público — exatamente os atributos buscados por economias orientadas ao mercado.

Uma escolha que não pode ser adiada

O Paraguai vive um momento ímpar e, ao mesmo tempo, enfrenta uma escolha inadiável. Dispõe de tempo, mas quanto antes agir, melhor. Com apenas 7% da população acima de 65 anos, o país pode estruturar um ambiente regulatório estável, previsível e favorável ao desenvolvimento de seguros, pensões e instrumentos de poupança privada, reforçando o papel do capital doméstico no financiamento do crescimento.

A decisão estratégica não é entre Estado e mercado, mas entre antecipação e postergação. Utilizar o bônus demográfico para fortalecer a poupança privada e o investimento produtivo é escolher crescimento sustentado. Ignorar essa oportunidade é aceitar que o envelhecimento futuro será acompanhado por maior carga fiscal e menor dinamismo econômico.

O bônus demográfico não se perde de uma vez — ele se dissolve lentamente, à medida que decisões deixam de ser tomadas. O Paraguai ainda pode escolher transformar sua vantagem demográfica em um ativo econômico duradouro. O tempo, porém, não é infinito.

(*) Atuário, diretor do IBA, membro do Comitê de Pronunciamentos Atuariais do Instituto Brasileiro de Atuária (IBA), membro do Actuarial Standards Committee (ASC) da International Actuarial Association (IAA) e membro do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

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